sexta-feira, maio 30

Julinho da Adelaide

Na época da Ditadura Militar, tudo ou quase tudo o que Chico Buarque de Holanda escrevia era censurado. Para driblar a Censura ele compôs algumas músicas com o pseudônimo de Julinho da Adelaide e os censores as deixaram passar incólumes.
Estes dias lembrei-me dele em razão das notícias veiculadas pela mídia. Em São Paulo mais um Promotor de Justiça é suspeito de cometer crimes. No Rio, o ex-Governador e ex-Secretário da Segurança Garotinho, o ex-Chefe da Polícia Civil e mais alguns outros policiais estão sendo acusados de corrupção, formação de quadrilha, contrabando e outros crimes. Pelo Brasil afora, um Delegado aposentado foi preso por pedofilia e crimes semelhantes foram atribuídos a um padre e a um pastor. Pais são acusados de matar filhas e filhos, filhos e filhas são acusados de matar pais e avós.
Em quem confiar? A quem recorrer? Que estrago isso faz à convivência em sociedade? Porque seguir as regras estatuídas se os que as criam e os que as devem fazer respeitar não as cumprem?
Lembrei-me de algumas comunidades onde as pessoas confiam mais sua “segurança” e “bem estar” ao crime organizado do que aos agentes do estado.
Fica claro porque proliferam as seitas e religiões que prometem um mundo melhor apenas depois da morte. É compreensível porque se devem pagar os dízimos. Já que aqui pagamos impostos e a coisa vai por aonde vai, porque não garantir um seguro no além contribuindo regularmente?
Edu Lobo e Ruy Guerra diziam que “Quem não tem mais nada a perder só vai poder ganhar”. Chico “Julinho da Adelaide” Buarque ia mais fundo:
“Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão”.

segunda-feira, maio 26

Justiça seja Feita

Notícia no UOL 26/05:
A vendedora Silviê Vieira Cardoso, 31, está presa desde o último sábado (24) na cidade de Silvânia (86 km de Goiânia) acusada em um inquérito de triplo homicídio contra membros de sua própria família. Segundo a polícia, ela é suspeita de ter mandado matar o pai, Waldely Cardoso de Paula, 57; a mãe, Sirlene Suely Cardoso, 52; e a avó Luzia Maria Vieira, 71, para ficar com a herança da família.

Os três foram mortos a tiros na fazenda da família, localizada no município de Gameleira, nas proximidades de Silvânia, na tarde da última sexta-feira (23).

O autor dos disparos é José Miguel Alves de Camargo, 19, que confessou os crimes e apontou Silviê como mandante. Ele morava na propriedade há cinco meses e trabalhava para as vítimas. A arma dos crimes, um rifle de repetição calibre 22, pertencia a Walderly.
Apesar de estar preso e nem ter idéia de quando conseguirá a liberdade, José Miguel afirmou à reportagem do UOL que ainda tem esperanças de receber o dinheiro combinado. "É lógico que vou receber. Perdi a liberdade, mas vou querer receber meu dinheiro. Tínhamos um trato e eu cumpri a minha parte. Eu fiz o serviço e não vou sair de mãos abanando", afirma.

Justiça seja feita: ele fez o serviço e tem que receber, não é? Dê sua opinião.

Doce

Todas as pessoas que usam adoçantes artificiais são gordas. Adoçante engorda!

sábado, maio 24

Passeio da Galinha

Galinha é um bicho idiota. Sempre pensei assim porque as ditas, quando sentiam-se ameaçadas pelo meu carro, saiam desesperadas correndo na frente dele, sem aventar a possibilidade de sair para um dos lados.
Encontro vez ou outro caminhões cheios de caixas e estas cheias de galinhas, nas estradas que ligam o interior à capital. Não dá para não perceber; basta a aproximação de um caminhão desses e nosso olfato nos informa que lá vão as galinhas para a capital.
Encontro também os caminhões de volta e me parece lógico: os caminhões que levaram as galinhas, devem voltar para pegar outras. É assim a vida. Será que é por isso que toda transportadora mudou seu nome para "logística"?
Ontem descobri que a vida não é assim. Os caminhões vão para a capital cheios de galinhas e outros caminhões vêm para o interior cheios de galinhas. Ah, essa é a logística!
Foi então que descobri o quão idiotas são realmente esses bichos, que perdem tempo e dinheiro indo para lá e para cá, num passeio infindável e sem propósito, a não ser perder as penas pela estrada, até que morram.
Abaixo as aves acéfalas.

quinta-feira, maio 22

Antas derrubam avião

Não se assuste o eventual leitor. Não estou falando de nenhum ataque dos mamíferos tapirídeos que possam ter criado asas. Também não devem se afligir os parentes de pessoas que estão ou estivessem voando de um lugar para o outro a bordo de alguma aeronave. Falo aqui de membros da chamada grande imprensa, também conhecida por imprensa gorda, paquidérmica ou simplesmente antas.
Há algum tempo venho dizendo que o sonho dessa imprensa é a ocorrência de um acidente grave pelo menos uma vez por semana. Na falta de acidentes com muitas vítimas, servem crimes vitimando crianças. Acidentes aéreos, perto dos aeroportos, são o máximo. As equipes de reportagem podem ficar confortavelmente instaladas com acesso a restaurantes, cafés, sanitários e ainda abrigadas do calor e das intempéries. Não importa o pânico, a dor dos familiares ou o terrorismo, o que manda é o dinheiro dos patrocinadores e o mínimo esforço.
Agora, anteontem, foi a vez da Globonews. Uma fábrica de colchões pegou fogo perto do aeroporto, os carros de bombeiros passaram com as sirenes ligadas e zaz: “AVIÃO DA PANTANAL SE CHOCA COM PRÉDIO PRÓXIMO A CONGONHAS”. Imediatamente outras antas, como numa manada, para não perder a boquinha, também deram a “notícia”. Sites como UOL, Terra, iG, Folha on line, Estadão, e emissoras como a Record e a Band tascaram no ar coisas parecidas. Apesar da negativa tanto da Infraero quanto da empresa de aviação, foram veiculadas coisas como avião de carga, avião de passageiros, prédio residencial, ainda não se sabe o número de vítimas, etc.
No Congresso, um deputado do PSDB, Pannunzio, parou a CPMI dos Cartões Corporativos e já mandou condolências para os parentes das vítimas, aproveitando para responsabilizar o governo pelas mortes e pelo apagão aéreo.
Não se sabe como o nome da empresa chegou a Globonews, mas como existem cidades que são servidas apenas pela Pantanal, alguns parentes de passageiros da companhia ficaram apavorados. Obviamente ninguém será processado.
Com deputados como esse não se deve admirar que as CPIs ou CPMIs terminem em pizza, assim como, com todo esse desrespeito e manipulação, não se deve estranhar que a imprensa perca credibilidade.

terça-feira, maio 20

Tremores e Temores

Quando os mortos e sofridos de Mianmar e China entram pela minha sala através do jornal da Globo ou da Band, me comovo.
Dia seguinte, parado no tráfego, olhando aquela imensidão de pessoas reclusas confortavelmente em seus automóveis, ouvindo no noticiário o que lhes espera mais adiante, ansiosas ou desesperadas com uma reunião, um chefe, um cheque, um banco, uma bolsa, olhando vez ou outra se não vem um delinqüente na direção do SEU veículo, penso em um imenso terremoto ou furacão, que destrua as grandes cidades do mundo, prédios, máquinas e papéis, e sei que parte daqueles confinados nos automóveis dariam um suspiro de alívio ao pensarem na tarefa real e presente que teriam pela frente: plantar, caçar, pescar para poderem sobreviver.
Mais tarde, sob o ar-condicionado e as paredes de vidro, olhando a paisagem concreta do vigésimo-sexto andar, procuro alguma coisa real na imensidão de prédios, lages e telhados. Não encontro e sinto falta de um motivo, de um terremoto.

domingo, maio 18

De corujas, ratões, bambus e terremotos.

No último dia 22 de abril, às 21:00 horas, minha casa deu uma tremida. Estava no sítio e pra mim, uma coruja tinha apanhado algum ratão, daqueles que comem brotos de bambu, e pousado com ele sobre o telhado, onde lutavam. Pelo barulho o ratão negava-se a servir de jantar para a família da coruja. Minha mulher disse que o chão também tinha dado uma trepidada. Cá com os meus botões debitei a opinião dela a uma cochilada. Como a desordem parou logo, voltei a ler.
No dia seguinte é que soube que ela estava certa e que pelo menos no telhado não havia ocorrido baixa nas hostes dos ratões e eles continuariam comendo meus bambus. O epicentro do tremor ocorrera à cerca de duzentos e quinze quilômetros de São Vicente, litoral de São Paulo, e os reflexos tinham entrado pela minha porteira.
Agora em maio nos chegaram, desta vez pela imprensa, os alagamentos pelo Brasil, o tufão de Miamar e os terremotos da China. Em Miamar, antiga Birmânia, a água cobriu parte do país. Na China, em razão também da densidade demográfica, o estrago é ainda maior. Além do terremoto principal, até ontem, já tinham ocorrido mais cento e quarenta e cinco réplicas de terremotos (maneira eufemistica de chamar outros terremotos provavelmente decorrentes do primeiro). Muitos milhares morreram e muitos mais estão desabrigados. O que nos chega da China é o desespero de quem procura familiares soterrados ou anda pelas ruas sem ter para onde voltar.
Diante da radical ditadura militar de Miamar, impedindo ou dificultando o auxílio externo, talvez ocorram novas manifestações pelo mundo pedindo liberdade para o povo de lá, como ocorreu no final do ano passado. Na China, em razão da grande quantidade de crianças e adolescentes mortos pelos desabamentos de escolas, talvez se procure utilizar técnicas mais seguras de construção, especialmente desse tipo de prédios públicos. A falta de segurança deve afastar público das olimpíadas, mas ela vai ocorrer mesmo assim.
Vão ocorrer discussões sobre as causas desses desastres e talvez não se chegue, novamente, a nenhum consenso para a adoção de medidas preventivas por todos os países.
Talvez nem fique claro que o planeta, quando provocado, acaba respondendo.
Apesar do meu desgosto pelo estrago, espero que os ratões continuem comendo os brotos dos meus bambus (também muito apreciados naqueles países) e que as corujas continuem caçando os ratões. Que os barulhos no telhado sejam os preâmbulos dos jantares dos filhotes das corujas e que não tremam os pés da minha mulher.Espero ainda que meu primeiro terremoto tenha sido o último.

quarta-feira, maio 14

Fala Marina

A saída da Ministra Marina Silva pode trazer à luz, nos seus próximos pronunciamentos no Senado Federal, para onde retornou, alguns fatos não muito conhecidos ocorridos durante sua estada à frente do Ministério do Meio Ambiente. É provável que não traga embaraços ao governo e aos companheiros de partido, mas pode dizer das disputas que travou com outros ministros ou personalidades dentro e fora do governo federal. Aguarda-se que se manifeste a respeito das pressões sofridas, entre outras, quando da liberação de transgênicos. É provável que entre essas manifestações dedique espaço à comentada reserva indígena “Raposa Serra do Sol” no estado de Roraima e se manifeste a respeito da polêmica “faixa de reserva contínua versus soberania nacional” ou “direito indígena versus arrozeiros”. Uns acham que a reserva deve ser dividida para que se assegure a soberania nacional e o direito adquirido por agricultores que lá se instalaram e outros entendem que a reserva deva ser contínua para garantir o direito natural dos indígenas. Uns suspeitam que os índios podem entregar o território aos países vizinhos para exploração e outros que isso é forçar a barra para que os que lá chegaram depois ali permaneçam. Há muito, muito mais a ser comentado, na esfera do Meio Ambiente e voltaremos a ela. O que não está sendo comentado em lugar nenhum e muito menos por aqueles que se travestem de defensores da nossa soberania é a noticiada venda de 56 mil hectares, de mais de quatrocentos proprietários brasileiros, na fronteira com o Uruguai, para que a finlandesa Stora Enzo (ou Enso) plante eucaliptos. Essas terras serão somadas às que a mesma empresa já possui no vizinho país e que podem chegar a quase 25 por cento daquele território. Segundo outras fontes a área adquirida pode chegar a 86 mil hectares e estão sendo utilizados meios fraudulentos para essas aquisições já que a venda de áreas fronteiriças para estrangeiros necessita de aprovações especiais. Há muito que se discutir e muitos os ângulos a serem olhados.

terça-feira, maio 13

Um Olhar Enviesado

Assistimos à morte da Isabella e recebemos com regozijo a negação do Habeas Corpus. A sensação é do dever cumprido.
Conforme comentou o Plácido, abaixo, a imprensa tem um papel importante neste caso e poderia ter também uma função importante nos outros que estão apenas nas estatísticas. Sugiro não apenas uma reportagem e sim uma série na qual se mostrasse como e onde surgem os problemas e como evitá-los. Poderiam usar mais uma vez o caso Isabella, porém de maneira construtiva, ensinando cuidados.
A morte de Isabella poderia ser evitada? Talvez sim pois, considerando a conclusão policial, os três agentes causadores poderiam ser aperfeiçoados:
a) com uma mãe mais madura e mais presente
b) com uma "madrasta" mais equilibrada (menos explosiva)
c) com um pai mais "pai".
Será que a imprensa faria um trabalho desse? Escreva ao seu jornal, à poderosa Globo, ao Datena. Quem sabe alguém ouse.

segunda-feira, maio 12

E depois?

Lamentavelmente, como ocorre oitocentas e tantas vezes por ano (segundo as estatísticas divulgadas), uma criança foi assassinada. Não estão computadas aí aquelas vitimadas por erro ou falta de cuidados médicos e aquelas assassinadas por falta da alimentação necessária. Faltam também as vítimas de crimes de trânsito causados por imperícia, imprudência ou negligência.
Muito se tem falado que este caso específico, o da menina Isabella, comoveu a nação inteira e por esta razão atraiu as luzes da imprensa, quando o que ocorreu foi justamente o contrário. A imprensa é que atraída pelo caso e à busca de faturamento promoveu a comoção da nação. Houvesse mobilização igual e centenas de outros casos teriam tomado os lares e as atenções da população.
Dias houve em que emissoras de rádio e televisão permaneceram horas e horas com repórteres plantados junto às entradas dos edifícios das pessoas mais ou menos envolvidas transmitindo flashs com a opinião de transeuntes enquanto nos estúdios advogados e juristas eram ouvidos por jornalistas, modelos, esportistas, atores e atrizes sobre as suspeitas e impressões da polícia ou da promotoria que as externavam no ar e, gravadas, eram repetidas incontáveis vezes.
Os pré-julgamentos, o terror infundido nas crianças que convivem com padrastos e madrastas, o sentimento da mãe da menina e dos avós, a insuflação para o linchamento dos suspeitos, nada disso tem importância. Casos como esse, que permitem colocar a equipe de reportagem num local de fácil acesso, próximo a sanitários, próximo ao comércio de lanches e que possuam abrigo contra o sol, o sereno e as chuvas são um achado.
Esse caso vai cair no esquecimento, como caiu do promotor que teria matado a mulher e a criança que ela esperava, o do deputado que cortaria inimigos com moto-serra, o do juiz filmado disparando contra um segurança, o do desembargador ou ministro que liberaria máquinas de bingo, o do promotor que passeando com a noiva, armado, teria matado um jogador de basquete ou vôlei e outros tantos.
Quando isso ocorrer os diretores de “jornalismo” vão rezar por um novo caso.
Vamos para os nossos comerciais e voltamos em três minutos, não saia daí.