segunda-feira, outubro 20

Adeus Eloá

São impressionantes a imbecilidade, a incompetência e o desrespeito que nos assolam.
O, em todos os aspectos, criminoso desfecho do seqüestro que ceifou a vida da adolescente Eloá Cristina Pimentel e feriu sua colega Nayara Rodrigues da Silva dá a exata medida do valor atribuído à vida humana tanto pela maioria da chamada grande imprensa quanto pelos dirigentes dos órgãos de segurança.
Para os urubus sensacionalistas, como já disse aqui, o ideal seria que tivéssemos uma queda de avião ou o arremesso de crianças pelas janelas ou seqüestros, pelo menos uma vez por semana. Os índices de audiência se elevariam e o dinheiro dos patrocinadores abarrotaria os bolsos dos proprietários das emissoras e dos pseudojornalistas que se prestam a esses papeis.
A entrevista, ao vivo, com o seqüestrador Lindemberg Fernandes Alves, levada ao ar pela Rede TV, por Sônia Abrão deveria ser apreciada pela Justiça para que se apurasse em que grau a conduta da apresentadora contribuiu para o lamentável final do caso. As bobagens ditas por José Luiz Datena, Geraldo Luiz e outros “destacados” jornalistas da Bandeirantes, Record e SBT deveriam passar por um conselho de ética do jornalismo e fazer parte de um manual das redações no capítulo “Como não proceder”.
Logo após a liberação de Nayara, esta foi ouvida por horas na Delegacia de Polícia e parte de seu depoimento, que deveria ter sido mantido em sigilo pelo menos até o fim do seqüestro, foi divulgado pelos “competentes” jornalistas, notadamente a parte em que a adolescente acusava o criminoso de agredir a amiga no interior do apartamento.
Em seguida, de forma absurdamente criminosa a mesma Nayara foi mandada, ou no mínimo autorizada, a voltar ao apartamento para sujeitar-se novamente ao assassino. Alguém vai para a Cadeia por isso?
O Comandante das operações, se é que alguém comandava alguma coisa, informou que a mãe da menina estava de acordo com o retorno. Na noite deste domingo a mãe negou. Mesmo que tivesse concordado, a lei não autorizaria essa estupidez. Se uma menina de quinze anos, que acusou o seqüestrador de ter agredido sua amiga e cuja acusação deve ter chegado aos ouvidos do criminoso, divulgada pelos “expoentes” do nosso jornalismo, é competente para negociar com seqüestradores, para que enviar policiais militares ao exterior a fim de estudar e aprender essas técnicas?
O Comandante informou também que a desastrada e demorada invasão só ocorreu depois de um disparo no interior do apartamento. Vizinhos, jornalistas e o perito Molina dizem que não existiu tal disparo, ao menos durante o minuto que antecedeu a detonação dos explosivos. A Record apresentou uma gravação exclusiva com o som de um possível disparo. Molina, de qualquer forma, afirma que três disparos, provavelmente da arma do seqüestrador, ocorreram imediatamente após a explosão da porta.
Anteriormente o mesmo comandante havia declarado que a porta tinha sido arrombada com uma alavanca e que a explosão era de uma bomba de efeito moral jogada para dentro do apartamento.
Disse também que se a polícia tivesse executado o seqüestrador, com um atirador de elite, nas vezes que se apresentaram, a opinião pública criticaria a medida. O seqüestrador está vivo, uma vítima está morta, outra ferida e as criticas chovem de todos os lugares. A polícia estava ali para salvar as reféns ou para não receber criticas?
Entre as mentiras ditas, as comemorações pelos índices de audiência, as incompetências, os equívocos e as infrações cometidas, sobraram apenas as fotos com os sorrisos de Eloá e os órgãos doados que melhor estariam se o tempo pudesse voltar ao final de semana anterior apagando também tanta imbecilidade e tanta estupidez.