domingo, maio 18

De corujas, ratões, bambus e terremotos.

No último dia 22 de abril, às 21:00 horas, minha casa deu uma tremida. Estava no sítio e pra mim, uma coruja tinha apanhado algum ratão, daqueles que comem brotos de bambu, e pousado com ele sobre o telhado, onde lutavam. Pelo barulho o ratão negava-se a servir de jantar para a família da coruja. Minha mulher disse que o chão também tinha dado uma trepidada. Cá com os meus botões debitei a opinião dela a uma cochilada. Como a desordem parou logo, voltei a ler.
No dia seguinte é que soube que ela estava certa e que pelo menos no telhado não havia ocorrido baixa nas hostes dos ratões e eles continuariam comendo meus bambus. O epicentro do tremor ocorrera à cerca de duzentos e quinze quilômetros de São Vicente, litoral de São Paulo, e os reflexos tinham entrado pela minha porteira.
Agora em maio nos chegaram, desta vez pela imprensa, os alagamentos pelo Brasil, o tufão de Miamar e os terremotos da China. Em Miamar, antiga Birmânia, a água cobriu parte do país. Na China, em razão também da densidade demográfica, o estrago é ainda maior. Além do terremoto principal, até ontem, já tinham ocorrido mais cento e quarenta e cinco réplicas de terremotos (maneira eufemistica de chamar outros terremotos provavelmente decorrentes do primeiro). Muitos milhares morreram e muitos mais estão desabrigados. O que nos chega da China é o desespero de quem procura familiares soterrados ou anda pelas ruas sem ter para onde voltar.
Diante da radical ditadura militar de Miamar, impedindo ou dificultando o auxílio externo, talvez ocorram novas manifestações pelo mundo pedindo liberdade para o povo de lá, como ocorreu no final do ano passado. Na China, em razão da grande quantidade de crianças e adolescentes mortos pelos desabamentos de escolas, talvez se procure utilizar técnicas mais seguras de construção, especialmente desse tipo de prédios públicos. A falta de segurança deve afastar público das olimpíadas, mas ela vai ocorrer mesmo assim.
Vão ocorrer discussões sobre as causas desses desastres e talvez não se chegue, novamente, a nenhum consenso para a adoção de medidas preventivas por todos os países.
Talvez nem fique claro que o planeta, quando provocado, acaba respondendo.
Apesar do meu desgosto pelo estrago, espero que os ratões continuem comendo os brotos dos meus bambus (também muito apreciados naqueles países) e que as corujas continuem caçando os ratões. Que os barulhos no telhado sejam os preâmbulos dos jantares dos filhotes das corujas e que não tremam os pés da minha mulher.Espero ainda que meu primeiro terremoto tenha sido o último.