Que direito tem um apresentador de exibir em programa de transmissão nacional, em horário dito nobre, imagens de uma menina grávida vítima de violência sexual praticada pelo próprio pai?
Não mostrar nitidamente o rosto da criança ou adolescente, mas informar o bairro e mostrar a mãe, o pai, os avós e vizinhos não é a mesma coisa que identificar completamente a vítima e condená-la aos mesmos constrangimentos que sofreria se tivesse as feições mostradas?
O Supremo Tribunal Federal, recentemente, exigiu cuidados com a divulgação de imagens de presos, notadamente dos abastados criminosos nacionais. Será que se preocupa também com a preservação das imagens das vítimas? Existe alguma providência séria nesse sentido?
Antigamente, tanto no rádio quanto na televisão, existiam programas que se aproveitavam de crimes ocorridos e de criminosos para rechearem programações. Vários apresentadores obtiveram fama e cargos eletivos à custa de vítimas, policiais e criminosos. A grande maioria berrava dentro dos estúdios ofendendo pessoas acusadas de cometimento de crimes, mesmo antes da formal condenação. A totalidade, ou a quase totalidade, das entrevistas nesses programas era gravada. Um repórter ia até a Delegacia e fazia perguntas ao detido. Depois, no estúdio, o apresentador fazia novas perguntas, quase sempre começadas com “Vagabundo”, “Canalha”, “Covardão”, ou outros xingamentos e as respostas gravadas eram transmitidas como se o preso respondesse diretamente ao apresentador. É óbvio que, por segurança, o apresentador e o detido estavam a dezenas, centenas ou milhares de quilômetros um do outro. Os mais agressivos andavam com seguranças.
Não tenho ouvido rádio, mas na televisão é fácil encontrar-se programação desse tipo, nos mais variados horários. É muito provável que haja audiência e que esse tipo de programação acarrete rendimentos para as emissoras, para as empresas patrocinadoras e, fundamentalmente, para os apresentadores.
O que é discutível é que valores morais, éticos ou transformadores esse tipo de porcaria pode proporcionar ao conjunto da sociedade? No que esse lixo pode ajudar as vítimas ou melhorar as outras pessoas e os seus comportamentos? As concessões públicas das emissoras são dadas com essa finalidade?
Tenho certeza que a apresentação detalhada de pessoas defecando atingiria os mesmos propósitos, audiência e rendimentos.
O produto final, certamente, seria o mesmo.
sexta-feira, agosto 22
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