quinta-feira, maio 22

Antas derrubam avião

Não se assuste o eventual leitor. Não estou falando de nenhum ataque dos mamíferos tapirídeos que possam ter criado asas. Também não devem se afligir os parentes de pessoas que estão ou estivessem voando de um lugar para o outro a bordo de alguma aeronave. Falo aqui de membros da chamada grande imprensa, também conhecida por imprensa gorda, paquidérmica ou simplesmente antas.
Há algum tempo venho dizendo que o sonho dessa imprensa é a ocorrência de um acidente grave pelo menos uma vez por semana. Na falta de acidentes com muitas vítimas, servem crimes vitimando crianças. Acidentes aéreos, perto dos aeroportos, são o máximo. As equipes de reportagem podem ficar confortavelmente instaladas com acesso a restaurantes, cafés, sanitários e ainda abrigadas do calor e das intempéries. Não importa o pânico, a dor dos familiares ou o terrorismo, o que manda é o dinheiro dos patrocinadores e o mínimo esforço.
Agora, anteontem, foi a vez da Globonews. Uma fábrica de colchões pegou fogo perto do aeroporto, os carros de bombeiros passaram com as sirenes ligadas e zaz: “AVIÃO DA PANTANAL SE CHOCA COM PRÉDIO PRÓXIMO A CONGONHAS”. Imediatamente outras antas, como numa manada, para não perder a boquinha, também deram a “notícia”. Sites como UOL, Terra, iG, Folha on line, Estadão, e emissoras como a Record e a Band tascaram no ar coisas parecidas. Apesar da negativa tanto da Infraero quanto da empresa de aviação, foram veiculadas coisas como avião de carga, avião de passageiros, prédio residencial, ainda não se sabe o número de vítimas, etc.
No Congresso, um deputado do PSDB, Pannunzio, parou a CPMI dos Cartões Corporativos e já mandou condolências para os parentes das vítimas, aproveitando para responsabilizar o governo pelas mortes e pelo apagão aéreo.
Não se sabe como o nome da empresa chegou a Globonews, mas como existem cidades que são servidas apenas pela Pantanal, alguns parentes de passageiros da companhia ficaram apavorados. Obviamente ninguém será processado.
Com deputados como esse não se deve admirar que as CPIs ou CPMIs terminem em pizza, assim como, com todo esse desrespeito e manipulação, não se deve estranhar que a imprensa perca credibilidade.